Costumo dizer que o amor é um conceito ultrapassado. Já rebateram meu argumento dizendo que “o amor não é um conceito, mas um sentimento”. Não colou. É evidente que o amor é um sentimento, simplesmente porque a gente sente, mas isto não tira o fato de que ele é uma ideia, um conceito, e digo isto porque, quando falamos de amor, traçamos uma série de definições e argumentos lógicos que baseiam nossa afirmação e norteiam aquilo que sentimos.

É caso de dizer que, neste texto, não falo do “amor de mãe, amor de irmão, amor de amigo, amor pelo gatinho fofo”. Todos eles são amor, sim, se você decidir que é. No entanto, neste caso, falo do amor romântico, entre dois seres humanos: o amor dos casais. Dito isto, vamos ao texto.

Digo que o amor é um conceito ultrapassado porque vejo este fracasso nos olhos de muitos casais. Percebo que o sentimento de posse ou de onipresença de um na vida do outro arrefece as forças dos indivíduos. A ideia de que um casal é um amálgama entre dois seres, duas metades de uma laranja, um como complemento um do outro, é o grande vilão do amor. Vilão porque reproduz uma ideia de amor nascida no romantismo, no começo do século XVIII: o amor romântico.

Habita na ideia deste amor romântico, como a personagem Werther, de Goethe, que se mata em nome de um amor impossível, ou então nas grandes histórias de amor como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, uma ideia de impossibilidade. Quanto mais impossível, quanto mais rumar para o fim, para a morte ou para o limite do homem, melhor. Quanto mais sofrimento, mais valor o amor tem. Quanto mais vítima do destino, mas vou amar.

Hoje em dia, esta ideia não se sustenta: nosso mundo expulsa qualquer possibilidade de felicidade nestes termos. O amor romântico não consegue conviver com nenhum fio de realidade e tudo em nosso mundo joga em nossa cara qualquer tipo de ilusão. Assim, vejo casais frustrados e desesperados em manter as bases de uma relação – bases estas que eles nem mesmo acreditam. De outro lado, vejo solteiros que sequer sabem como se mover: Que pessoa procurar? O que eu preciso? O que vai ser bom pra mim?

Os sintomas destes problemas podem ser vistos nas declarações de amor. Todos se emocionam ao ver em uma novela ou um filme alguém fazer um gesto extremado para quem ama: cantar em sua escola, viajar o país inteiro para ver a pessoa, um pedido de casamento em um estádio de futebol, etc. As pessoas olham e fazem “owwwwn”, mas sequer se imaginam nesse lugar. Sonham com isso, mas odiariam estar naquele lugar. Sentem-se constrangidas justamente por aquilo que acham lindo e no fundo, gostariam de desejar. Adoram a ideia, mas odeiam a prática. Envergonham-se de sentir o que sentem e até debocham da coragem dos outros. Em parte, estão certas.

Essas declarações manifestam apenas uma coisa: a necessidade de tornar pública toda e qualquer palavra e gesto que se faça em direção ao outro simplesmente porque isto dá validade oficial a esta palavra e deixa claro: “a partir de agora toda a sociedade é testemunha do que fiz e deve vigiar junto comigo nosso futuro.”

O que eu quero de alguém? Esta pergunta é essencial, antes mesmo de saber o que é o amor ou o que se quer dele. Antes de pensar em relacionamento ou em namoro ou em casamento ou, simplesmente, em ter alguém pra ficar, é preciso saber o que vai te fazer bem amanhã, e depois, até, inclusive, quando você não quiser ninguém.

A verdade é que estamos perdidos, não sabemos quem queremos, não sabemos o que queremos, não sabemos precipitar as perguntas, por isso, vamos permanecer no fracasso. O amor está ultrapassado. Estamos ultrapassados. Ou melhor: estamos em algum lugar para poder dizer alguma coisa?