Alguém já se fez esta pergunta: Por que estou vendo novela? Imagino que muitos tenham pensado em “porque é bom”, mas também posso prever que esta resposta não tenha satisfeito você, humilde leitor. No máximo, o que você sentiu foi alguma raiva estranha dizendo: “quem é esse cara para dizer que não posso ver novela?”. Pois é, este é um sintoma importante do quadro que quero pintar.

Antes de mais nada, digo que este texto não é uma ode contra a novela, tampouco significa dizer que o gênero é ruim ou que as emissoras são não capazes de fazer o produto com extrema qualidade. Pelo contrário, cada vez mais as emissoras investem e se especializam tanto na produção caríssima quanto em uma “linha de montagem” cada vez mais eficiente e profissional. Mas…meu assunto não vai por aí.

Pergunto se a novela representa mesmo a tal ‘realidade brasileira’. Representa? Em tempos de Netflix, com séries produzidas como filmes, com toda complexidade e tensão produzida nas sociedades, a novela parece um programa infantil. Ainda maniqueísta, ela não cessa de repetir a fórmula: é o bem, é o mal, é o bem sofrendo e o mal ganhando até o fim quando tudo se inverte. E o pior, são oito meses da repetição do mesmo padrão até que magicamente ele se inverte. A prova disso está no fato de que, quando a novela faz algo diferente, isto é celebrado como algo altamente inovador, como se beirasse a genialidade, ou simplesmente, como é o caso de ‘A Regra do Jogo, é desprezado pela maioria do público.

Sem representar uma realidade, a novela tampouco representa aquilo que sentimos. O amor de nossos tempos é absolutamente diferente do apresentado na novela. As famílias, as brigas também. Tudo na novela é encenado de forma a emular uma situação ideal de tensão, uma abertura estranha para um fechamento irreal da representação das coisas. As relações financeiras, a favela, os ricos, a escola… A novela é anacrônica não porque não entende o conteúdo do seu tempo, mas porque erra a mão na forma. É a forma da novela seu grande vilão!

Entendo que uma geração anterior, de nossos pais e avós, sejam apegados a um gênero rançoso como o da telenovela com seus vícios e escapismo cotidiano. No entanto, parece estranho uma geração como a nossa, conectada, que não depende de hora para nada, pois tudo está acessível o tempo todo, ainda se renda a uma narrativa pobre, exemplar, como um filme de Hollywood da década de 60.

A pergunta se repete: por que ainda vemos novela? E a resposta não avança. Porque é bom é pouco. Porque eu gosto é pouco. Toda a resposta parece pequena demais. Só a novela continua gigante. Talvez porque a novela nos mostre aquilo que perdemos, aquilo que nos faz ruins, ingênuos e despreparados pra vida. A novela é nosso maior sintoma social. Gostamos de novela porque repetimos os mesmos erros e encontramos neles sempre a mesma saída. A novela é o maior espelho do Brasil: uma caricatura de si mesmo, exposta em carne viva.

A novela é aquilo que somos. Por isso vemos novela. E acho que ainda vamos continuar a ver.